Gosto e anatomia
Vê-se agora por aí, na tela total de Jean Baudrillard, a última batalha sobre o direito de escolher. Sei que muitos temem as expressões escatológicas e míticas, mas, nesse caso, não há como pensar que o momento em que vivemos não traga consigo umas trombetas joaquimitas e uns anjos zarolhos que parecem semente de guaraná.
Mas de que se trata essa peleja? O problema sobre o “direito de escolher” tem relação, em primeiro lugar, com as ideias de desuniformidade e estilo, tão derrotadas quanto obsoletas.
É possível que em alguns anos haja um refluxo barroco, especialmente na literatura, que nos faça admirar como primeiro critério estético os hiatos, o pensamento inacabado, as ideias que tropeçam em si mesmas, a ranhura do raciocínio em detrimento do “pensamento liso”, da superfície? Já critiquei Jeff Koons em outros textos, mas hoje reconheço que ele sintetizou, com seus cachorrões brilhantes, o pensamento editável, os “fact checks”, o algoritmo, “tudo para você do jeito que você prefere”.
Nenhuma rusga.
Dogão é mau.
Reparem no seguinte:- analogicamente, as coisas simples e naturais também seriam aquelas “lisas e decentes”, “sóbrias” e “desafetadas”. Aqui, no entanto, temos aquela conhecida inversão diabólica; agora, naturais mesmo são as ideias consideradas ridículas, os artifícios, a chamboíce e os berloques. Talvez seja necessário que artistas visuais passem cinquenta anos tentando encontrar o ângulo perfeito para o nu, que os músicos tenham novamente suas obsessões por notas intraduzíveis e os escritores se deitem e levantem buscando duas ou três palavras, ou, ao contrário, mas na mesma direção, que escrevam romances gigantescos com dezenas de personagens (embora algo semelhante já tenha sido tentando pelo romance americano de Vollmann, Pynchon e DFW, tenho em mente obras ainda menos corretas e ainda mais caudalosas).
Essa percepção do gosto é, por sua vez, um efeito colateral da própria anatomia do pensamento. Digo, contudo, pensamento, quando poderia também falar em “olhos” ou “estômago”. Como digere o mundo, nobre deputado? Gurdjieff contava uma anedota interessantíssima sobre esse tema. Certa feita, encontrou um mestre sufi e relatou a ele suas práticas espirituais, exercícios de respiração e dieta. O sufi, no entanto, repreendeu a conduta de Gurdjieff e disse a ele que se alimentasse apenas de ossos e vísceras porque o estômago fraco, acostumado aos melindres de uma dieta rigorosa, seria a origem de muitos males espirituais.
O direito de escolher, nesse caso, é o direito a deglutir e regurgitar.
Queda e ascensão do canibal.


